
Preta Maria
RESTAURANTE
SÃO PAULO, BRASIL, 2026
Uma arquitetura que celebra a cultura afro-brasileira: assim nasce o restaurante Preta Maria, projetado para a chef e ativista Bela Gil, e localizado na Mata São Paulo. A partir de uma abordagem afrofuturista que rompe com representações colonizadoras sobre a África, o projeto busca celebrar a experiência dos africanos no Brasil através da arquitetura, da arte, da tecnologia e da culinária. Bambu, taipa, pedra e recursos de alta tecnologia, como o design paramétrico, se encontram em uma composição que mistura inovação, afeto e ancestralidade.

O salão interno foi concebido como um grande espaço circular que representa a roda, dinâmica relacional presente em diversas manifestações culturais afro-brasileiras, como o candomblé, a umbanda, a capoeira, o jongo, a encantaria e o samba. Na roda, todos estão em pé de igualdade e se movimentam juntos como um corpo coletivo que só existe porque reconhece e celebra suas diferenças.
O espaço circular é flexível e pode se reconfigurar para receber diferentes atividades e eventos. Em seu centro, um domo de bambu evidencia a importância histórica do material e celebra o encontro entre saberes africanos e afro-brasileiros, simbolizando a criação do conhecimento diaspórico e sua herança cultural. Um sofá circular contorna todo o espaço; sobre ele, espelhos fixados ao domo refletem os convidados e o entorno. O desenho dos espelhos se inspira nos artistas negros Rubem Valentim (1922–1991) e Abdias Nascimento (1914–2011), cujas obras têm na geometrização e na síntese visual seu elemento central — a partir da subtração e adição de formas puras (círculos, triângulos e retângulos), constroem-se novos símbolos e composições marcadas pela repetição e sobreposição.





O bar é um dos elementos de destaque visual do projeto, revestido inteiramente em pedra brasileira Ágata-Azul retroiluminada. O padrão geométrico de sua base em madeira foi desenvolvido por produção digital em CNC, a partir da decomposição do adinkra Mmere Dane — “mudanças de tempo”, símbolo que representa a transformação ao longo dos ciclos da vida — reinterpretado em uma composição de formas puras: círculos, retângulos e triângulos.
O piso em concreto pigmentado de azul faz referência ao mar como espaço de travessia da diáspora, de África à América — uma transmigração de culturas, saberes e identidades.


um espaço criado para celebrar, compartilhar e difundir a cultura
afro-brasileira para além da arquitetura e do design, resgatando saberes ancestrais e dialogando com referências africanas contemporâneas
O protagonismo negro permeia todo o projeto arquitetônico. Uma espécie de portal, que conecta o terraço ao salão circular interno e é revestido em folha natural de sucupira, foi inspirado no trabalho das mulheres de Oualata, no sul do Saara, que tradicionalmente pintam ao redor de janelas e portas para comunicar ao mundo exterior mudanças no status familiar, como nascimentos e mortes. Mais do que um elemento de passagem, o portal simboliza o retorno ao útero: atravessar a entrada de uma casa é, simbolicamente, retornar ao aconchego materno — a um espaço de proteção, acolhimento e pertencimento.


